Uma história de fé,paixão e folclore.

6 de Janeiro de 2012 - 20h10

Reisado em Crato Ceará

Folia de Reis, Crato, Ceará

Dia de Reis, festa do povo


 

A Festa de Reis é vista, quase sempre, como o encerramento do ciclo natalino. É a hora de desmontar a árvore de natal, o presépio, e marca a volta da vida ao normal.

Por Lúcia Beatriz Torres (1) e Raphael Cavalcante (2)


A Festa de Reis, que abrange múltiplas formas de expressão, tem lugar reservado, e nobre, nas festas populares brasileiras. Suas origens perdem-se no catolicismo dos países latinos, e principalmente ibéricos, fonte original da influência europeia na cultura brasileira.

O ciclo natalino reproduz comemorações milenares com as quais os povos assinalam, no hemisfério norte, o início do inverno - e do verão, no hemisfério sul. O Natal herdou essa tradição milenar - foi no século terceiro da nossa era que a Igreja fez coincidir a data de nascimento de Cristo com o solstício de inverno na Europa, que ocorria em 25 de dezembro. Originalmente essa data era considerada como de nascimento do Deus Sol e foi adotada pela Igreja para facilitar a conversão de povos não cristianizados do Império Romano. Tradicionalmente, os povos latinos festejavam o nascimento de Jesus no dia 6 de janeiro que passou, desde então, a ser a festa da visita dos reis magos ao menino nascido em Nazaré .

A fixação pela Igreja, em 350 a. D., do 25 de dezembro como provável dia do nascimento de Jesus Cristo (o Natal) abriu caminho para a comemoração da chegada dos reis magos (Melchior, Baltasar e Gaspar) em 6 de janeiro. Em alguns países latinos, principalmente ibéricos, esta data era tradicionalmente mais importante do que o Natal - dai a forte presença de sua comemoração na tradição popular brasileira, enriquecida com contribuições culturais indígenas e africanas, herdada do catolicismo popular latino e ibérico. O Portal Vermelho publica aqui um estudo de Lúcia Beatriz Torres e Raphael Cavalcante sobre esta tradição popular (José Carlos Ruy).


Festas de Santos Reis


Aprender é (re) viver



“Partiram [os Magos] de suas terras [no Oriente]e, guiados pela luz de uma estrela resplandecente, chegaram à gruta, em Belém, na Judéia, para adorar o lho de Deus que havia nascido, ofertando-lhe régios presentes: Ouro, Incenso e Mirra.”

Síntese da Viagem dos Reis Magos baseada no Evangelho de Mateus (2, 1-12) (3).

O texto bíblico de Mateus alude vagamente a respeito dos Magos, não especificando seus nomes e respectivas categorias, número, locais de procedência no Oriente, entre outros aspectos. O enigma que envolve essa narrativa bíblica tem ensejado infindáveis reinterpretações ao longo dos tempos. Conhecida, em sua forma mais popular, como a “Adoração dos Reis Magos”, essa passagem da Escritura Sagrada é fonte de inspiração para as mais variadas manifestações nas letras e nas artes, contribuindo para o desenvolvimento de tradições populares as mais diversas (Silva, 2006).Este contexto levou Mâle, nos alvores do século 20, à seguinte reflexão:

“A imaginação popular cedo foi aos evangelhos, tentando complementá-los, no que faltava. As lendas originaram-se nos mais antigos séculos da cristandade. Elas nasceram do amor, de um tocante desejo de conhecer mais Jesus e aqueles próximos[...]. O povo achava os evangelhos muito sucintos [...]. Nenhuma das cenas da infância de Cristo forneceu mais rico material para o povo que a Adoração dos Magos. Suas misteriosas figuras, mostradas veladamente nos evangelhos, despertavam ávida curiosidade nas pessoas. (Émile Mâle, L’Art Religieux de XII siècle, inserido no Gazette de Beaux Arts,1904).

A propósito, o título de Reis, atribuído aos Magos do Oriente, foi devido a Cesário [São Cesário], Bispo de Arles, França, no século 6. No século seguinte, o Papa Leão I assegurou, em seus “Sermões” sobre a celebração da Epifania, que os Reis Magos eram em número de três. Todavia, seus nomes somente mais tarde foram estabelecidos. As tradições populares do ciclo natalino eram comuns em toda a Europa Cristã, em países como França, Itália, Alemanha (4), Portugal e Espanha. Os dramas litúrgicos medievais eram utilizados como instrumento de ensino e divulgação da doutrina cristã. O episódio dos Magos do Oriente, desde cedo, tornou-se um dos temas prediletos para efeito de dramatização (Officium Stellae). Representações de rituais litúrgicos relativos aos Magos, que, a princípio, eram realizados no interior das igrejas, foram, pouco a pouco, popularizando-se, transportados para espaços abertos – praças e ruas. Assim surgiram os cortejos, vinculados aos templos religiosos das cidades, que encenavam a temática dos Magos, bem como grupos peditórios, no âmbito dos povoados rurais que, de casa em casa, levavam a mensagem do nascimento de Jesus Cristo. Atualmente, alguns países europeus ainda mantêm essas tradições milenares como, por exemplo, o Cortejo dos Reis Magos na Basílica de Santo Eustórgio (5) em Milão, Itália, e a Cabalgata de Reyes Magos, em Sevilha, Espanha, bem como o costume dos Grupos de Villancicos (Espanha) e de Janeiras e Reis (Portugal).

No período colonial, os colonizadores, em conjunto com os missionários jesuítas que aportaram ao Brasil, vindos com o primeiro Governador Geral Tomé de Sousa, em 1559 e em anos seguintes, trouxeram essas tradições da Península Ibérica. Estes utilizavam autos litúrgicos com a temática dos Reis Magos, sob a forma de canto, dança e encenação, no processo de catequese e ensino, tanto dos nativos indígenas como dos próprios colonos portugueses(reinóis) e, posteriormente, dos escravos negros. O catequista José de Anchieta, considerado por muitos o precursor das letras brasileiras, formado na escola de Gil Vicente, compôs, ensaiou e representou sua peça teatral inicial, “Pregação Universal”, reintitulada “Na Festa de Natal”, na Igreja dos Jesuítas, em São Paulo de Piratininga (atual cidade de São Paulo), no Natal de 1561, no Ano Novo e no dia de Reis de 1562. Este é o primeiro registro de um Auto encenado no Brasil que, com adaptações diversas, foi repetido por toda a costa brasileira, em aldeamentos jesuíticos como São Lourenço [Niterói] e São Vicente [São Paulo], Reis Magos [Espírito Santo], entre outros (Silva, 2006).

Na segunda década do século XVIII, Nuno Marques Pereira, em seu Compêndio Narrativo do Peregrino da América (Câmara Cascuco, 1998), registra a presença de Grupos de Reis peditórios na Bahia: “[...] uma noite dos Santos Reis saíram estes [homens]com vários instrumentos pelas portas dos moradores de uma vila cantando para lhes darem os Reis em prêmio que uns lhes davam dinheiro e outros doces, frutas, etc.”

Tudo indica que, no início da colonização, junto aos núcleos de povoamento mais consolidados (Salvador/vilas próximas do Recôncavo, Olinda e, pouco depois Recife, já sob o domínio holandês, Rio de Janeiro/Niterói e São Vicente/São Paulo de Piratininga) moldaram-se as formas iniciais das tradições de Reis no Brasil. Presépios, Lapinhas e Pastoris, seguindo-se de outras representações folclóricas derivadas, Reisados, Rancho de Reis, Terno de Reis (versão baiana), Guerreiros, etc. O processo de transplantação dessas tradições intensificou-se durante o Ciclo do Ouro [em terras do atual estado de Minas Gerais, em cidades como Ouro Preto, Sabará, São João del Rei, entre outras], uma vez que aumentou, significativamente, o fluxo imigratório de colonos oriundos do norte de Portugal (Porto, Minho e Trás-os-Montes), regiões agrícola - pastoris, com expressivas tradições de Reis. Na medida em que o povoamento expandiu-se, essas manifestações se ramificaram e se difundiram por todo o território colonizado. Naturalmente, essas tradições que chegaram ao Brasil sofreram, gradativamente, a influência local pela incorporação dos elementos da cultura negra e indígena, através de hibridismos religiosos e culturais, ou seja, como preconizam diversos folcloristas brasileiros, adquiram a “cor local”.

O processo de popularização dos ritos litúrgicos, através das novas formas de representação que surgiram, em particular sobre a influência dos Reis Magos, resultou, em muitos casos, em “excessos de profanização”. Tal fato levou a Igreja a reprovar essas manifestações populares, passando a impedir a entrada desses Grupos no interior das Igrejas, afastando-se, desse modo, de seus fiéis que, no entanto, a seu modo, continuaram a levar a palavra de Deus para lugares aonde o catolicismo não chegava ou não os aceitava.

Na década de 1980, com a vinda do Papa João Paulo II a Santo Domingo (América Central), houve, contudo, uma mudança dessa postura eclesial. A partir daí, a Igreja Católica, através do processo de inculturação, abriu novamente suas portas a essas manifestações populares, reaproximando-se, assim, de seus seguidores, dando novo impulso às Festas dessas tradições de Reis.

Colocando a inculturação na linha da encarnação promovida pelo Cristo, compreende-se que se trata de atingir os níveis mais profundos que constituem uma cultura, nas organizações da sociedade, nos relacionamentos entre os homens e com Deus 6.

No Brasil, as tradições populares do Ciclo Natalino, baseadas nos costumes religiosos ibéricos, são designadas por Reisados. Segundo o mestre folclorista brasileiro Câmara Cascudo “[...] sem especificação maior refere-se sempre aos ranchos, ternos e grupos que festejam o Natal e Reis. O Reisado pode ser apenas a cantoria como também possuir enredo” (Câmara Cascudo,1998). É necessário lembrar que, dentro do ciclo natalino, existem manifestações que, apesar de serem habitualmente chamadas de Reisados, não possuem a temática dos Reis Magos e do Menino Jesus, o que não impossibilita a participação desses grupos nas Festas de Santos Reis. Como exemplo, temos a Chegança e a Marujada (temática náutica, envolvendo a luta dos Mouros contra os Cristãos), a Taieira e o Ticumbi (temática afro-brasileira).

Falta unanimidade na definição conceitual por parte de estudiosos dos Reisados, em função da dificuldade classificatória dessas manifestações, posto que se compreendem em um numeroso grupo: as Folias/Companhias/Embaixadas de Reis, o Terno de Reis(baiano e sulino), Pastor, Tiração de Reis, o Presépio, as Pastorinhas, os Pastoris, o Bumba-meu-boi do Nordeste brasileiro oriental, o Boi-de-Mamão, o Boi de Reis, o Reis de Bois, o Cavalo-Marinho, a Companhia de Pastores, as Reiadas, Reis de Careta e tantas outras manifestações, cobrindo praticamente todo o território brasileiro. Encerra a questão o folclorista Ulisses Passarelli:

“A verdadeira riqueza do folclore brasileiro está na variedade inclassificável, no sincretismo, nos fenômenos de transposição, interpenetração e influências folclóricas, nas múltiplas variantes, em toda a criatividade, plasticidade, presença de espírito e dinâmica com que o povo os cria, recria, adapta, extingue e ressuscita”. (“Reisados Brasileiros: tipologia”, 2003).

Em alguns Grupos de Reis, o período de jornada/giro adianta-se ou estende-se aquém ou além do período de 24 de dezembro até 6 de janeiro. A partir do dia 8 de dezembro (Nossa Senhora da Conceição) até o dia de São Brás (3 de fevereiro – entendendo que, por advogar contra problemas de garganta, o Santo possa garantir uma boa voz para a cantoria), os Grupos podem encerrar sua jornada/giro. O tradicional Dia de Reis (6 de janeiro) é o mais marcante, seguido, em alguns lugares, pelo dia de São Sebastião (20 de janeiro – Folias de São Sebastião) e ainda pelo dia de Nossa Senhora das Candeias (2 de fevereiro).

No caso das Folias/Companhias/Embaixadas de Reis, as formas de representação dos grupos e de seus componentes, como também os estilos de cantoria, entre outras características, variam de região para região, entretanto a essência, o núcleo dramático dessas tradições “que é contar, rememorar a viagem dos Três Reis Magos, o culto ao Menino Jesus” (Diniz, 2007) não muda. De uma maneira mais ampla, todos os reisados, sob influência dos Reis Magos, constituem autos populares ou grupos de cantoria, formados: “[...] por grupos de músicos, cantadores e dançadores, que vão de porta em porta, no período de 24 de dezembro a 6 de janeiro, anunciar a Chegada do Messias, homenagear os Três Reis Magos e fazer louvações aos donos das casas onde dançam”. (Rocha, 1984)

Normalmente, saem por promessa e/ou devoção aos Santos Reis, e nas visitas, os Grupos de Reis entram nas casas, cantam à saúde e pedem a proteção de seus moradores, desejam o melhor para todos, através de bênçãos, recebendo, em contrapartida, donativos (dinheiro, mantimentos, entre outros). Esse “[...] ritual de reciprocidade [...] que se processa entre pessoas do grupo e dos moradores das casas visitadas”(Silva, 2006, 174) é o que os identifica, pois é nesse momento em que se percebem as trocas simbólicas imbuídas dessa outra característica marcante dos grupos, o peditório, que, de acordo com Théo Brandão (7), “[...] é o que lhe dá o verdadeiro [sentido] e lhe cria individualidade”. Os donativos arrecadados são utilizados para a realização da Festa de Encerramento do Grupo, ou Festa do (Ar)Remate, evento que marca o fim da jornada/giro, com fartura de comida e bebida, ansiosamente aguardado pelos componentes, familiares e convidados. Em muitas regiões, é comum a presença da figura do Festeiro (indivíduo que se prontifica a realizar essa festa),e em algumas regiões o responsável ou dono do Grupo (Mestre/Embaixador/ Capitão) assume esse papel.

As Festas de Santos Reis contam com grande envolvimento da comunidade. Os moradores/devotos incentivam os Grupos de Reis, ajudando como podem. Muitas famílias fazem questão de recebê-los em suas casas, oferecendo lanches para os integrantes. Costureiras costumam destinar um pouco de seu tempo para a confecção das indumentárias e artistas plásticos doam um pouco de sua arte aos “Santos Reis”. Outros se destinam a acompanhar os Grupos em suas peregrinações pelas ruas das cidades, ajudando no que for preciso.

A participação de pessoas da mesma família e de amigos nos Grupos de Reis é um fato de extrema importância para entendermos a resistência das tradições, na medida em que fica mais fácil se organizar e preservar suas raízes culturais, transmitidas de geração para geração, de pai para filho. Cada pessoa possui um papel importante dentro do complexo universo ritual e dos Grupos de Reis, que inclusive podem ter regulamento (estatuto) interno, com normas que devem ser seguidas pelos componentes e que estabelecem uma hierarquia e conduta mais responsável, disciplinada e fraterna podendo, inclusive, “punir” com a desfliação o integrante que não seguir esses preceitos. O mesmo se passa com as associações constituídas por um ou mais grupos de uma localidade, município ou região.

Por se tratar de uma enorme família, é bem representativo o número de crianças que participam desses grupos, o que estimula e desenvolve o seu lado lúdico, fazendo-as interagir internamente (entre elas) e externamente (com outros grupos), acelerando o processo de ensino-aprendizagem, inerente ao meio acadêmico (escolas) – primeiro contato com educação patrimonial. Essa experiência e a aproximação dos mais jovens são fundamentais para a perpetuação dessas tradições, uma vez que os detentores do “conhecimento dos antigos” encontram-se, em sua maioria, com idade avançada e, em alguns casos, infelizmente, não podem mais difundir seu rico legado. Vivenciando o fato folclórico, as crianças conhecem/absorvem melhor esse conhecimento transmitido pelos Mestres, reforçando seus laços culturais e conscientizando-se de sua identidade.
Cabe observar um expressivo surgimento de Associações/Organizações de Grupos de Reisados pelo Brasil, impulsionado pela busca de recursos e apoio por parte de seus participantes, resultando também na mobilização de seus integrantes e na participação das comunidades de seu entorno. Geralmente essas instituições da sociedade civil atuam em parceria com órgãos municipais encarregados da execução das Festas/Encontros de Reis (palco/ palanque, sonorização, transporte, alimentação, etc.).

A construção de Igrejas e Capelas de Santos Reis constituiu um ponderável componente de preservação das tradições. Esses espaços sagrados agregaram cerimônias religiosas populares como: missas solenes, procissões, dramatizações, apresentações decorais, etc., facilitando as atividades das Festas. Nos salões e outras instalações agregadas possibilitam também a realização de eventos comunitários. Essa iniciativa de erguer templos aos Reis ganhou mais força com a constituição dos Grupos em entidades associativas.

Os Grupos, geralmente compostos por pessoas humildes, de localidades/ bairros periféricos, precisam adaptar-se aos novos tempos que impõem, em função da necessidade de se trabalhar, que seus integrantes saiam para as jornadas/giros ou de noite ou nos finais de semana, muitas vezes também deixando para usar suas férias durante esse período. Sacrifícios à parte, o ritual é sempre muito bonito e composto de “etapas” ou “fases”, que podem variar de acordo coma região, mas com algumas poucas alterações: chegada/abrição de portas; saudação aos donos da casa, louvação ao presépio, despedida e, dependendo da manifestação, apresentação cantada/recitada e/ou dançada dos palhaços (e seus congêneres regionais). Podem ainda apresentar “cantos circunstanciais”, com temas diversos. O teor dos versos cantados é normalmente de natureza bíblica.

Em resumo, individualmente, podemos identificar claramente que existem dois tipos de Festa de Reis: as festas de encerramento de cada grupo e de “confraternização coletiva”, onde diversos grupos se apresentam publicamente “fora de sua base ritualística de ampla significação” (Idem, p. 8.), assinalando uma nova perspectiva: maior intercâmbio entre os grupos locais e regionais, apresentações fora do período tradicional e, consequentemente, maior participação dos moradores. Essas Festas de confraternização coletiva recebem diferentes denominações: Encontro de Folia de Reis, Festival de Folias de Reis, Festa de Santos Reis, Chegada das Bandeiras, entre outros, e costumam reunir um grande público. Os grupos participantes ganham troféus, certificados, visibilidade social e, algumas vezes, dinheiro. Alguns pesquisadores admitem que essas festas sejam um dos principais instrumentos de preservação da tradição e onde “[...] essas relações [comunitárias e associativas] atingem o auge” (Pereira, 1997).

Festas de Santos Reis pesquisadas no Brasil, por cidades e principais grupos de reisados participantes (SILVA, 2006):

• Pará: Belém, Ananindeua – Tiração de Reis e Folia de Reis

• Maranhão: São Luís e Caxias – Pastor e Reis de Careta;

• Piauí: Teresina – Reis de Careta

• Ceará: Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha - Reisado

• Rio Grande do Norte: Natal – Boi de Reis (Boi Calemba);

• Paraíba: João Pessoa, Tacimas e Bananeiras – Boi de Reis e Cavalo-Marinho;

• Pernambuco: Carpina, Santa Maria da Boa Vista e Garanhuns – Pastoril, Bumba-meu-boi,
Reisado, Cavalo-Marinho;

• Alagoas: São José das Lajes – Reisado e Guerreiro

• Sergipe: Laranjeiras e Japaratuba - Reisado:

• Bahia: Salvador e Santo Amaro da Purificação – Terno de Reis;

• Espírito Santo: Muqui, São Mateus e Conceição da Barra – Folia de Reis e Reis de Boi;

• Minas Gerais: Juiz de Fora, Poços de Caldas, Passos, Três Corações, Três Pontas, Itaú de Minas, Uberaba, Uberlândia, Araxá, Romaria, Patos de Minas, Jequitibá, Sete Lagoas, Montes Claros, Bocaiúva e Pirapora – Folia de Reis, Pastorinha e Companhia de Pastores;

• Rio de Janeiro: Nova Friburgo, Cordeiro, Barra Mansa, Duas Barras, Valença, Rio das Flores, Vassouras, São Fidélis e Itaocara – Folia de Reis;

• São Paulo: Ribeirão Preto, Batatais, Altinópolis, Cajuru, Santo Antônio da Alegria, Cássia dos Coqueiros, São José do Rio Preto, Votuporanga, Nhandeara e Assis – Companhia de Reis;

• Goiás: Goiânia – Folia de Reis;

• Distrito Federal: Brasília – Folia de Reis;

• Mato Grosso do Sul: Cassilândia, Parnaíba e Aparecida do Taboado – Folia de Reis;

• Paraná: Londrina, Maringá e Sarandi – Folia de Reis;

• Santa Catarina: Florianópolis e Itajaí – Boi-de-Mamão e Terno de Reis;

• Rio Grande do Sul: Osório, Gravataí e Santo Antônio da Patrulha – Terno de Reis.

Observa-se que os Grupos de reisados estão mais organizados, dispõem de maior apoio do poder público e realizam as Festas, a cada ano, com maior repercussão social. Entretanto, continuam realizando a sua produção de forma independente, fazendo praticamente tudo com recursos próprios: vestimentas (grupos saem com roupas doadas por outros grupos), conserto/compra de instrumentos, contratação de músicos quando necessário (sanfoneiro, cavaquinho, etc.), compra de alimentos para as Festas de Arremate. Alguns Grupos já produzem, sob forma de gravação (cassete, CDs e até em DVD), o registro de suas apresentações.

Hoje em dia, as Igrejas Pentecostais, que se instalaram nas periferias das localidades, têm contribuído para o arrefecimento das tradições de Reis, retirando muitos componentes dos Grupos de Reisados, normalmente por intolerância ou preconceito. O respeito à diversidade cultural independe de crenças e deveria ser tratado como um valor de cidadania.

Após a leitura desse texto, devemos refletir sobre a importância de se levar o conteúdo das Festas Populares para debate com profissionais da área da educação e, posteriormente, para os jovens nas escolas. Essas celebrações acontecem no âmbito da pedagogia da aprendizagem (“escola da vida”) e complementam a pedagogia da instituição de ensino, derrubando diferenças sociais e “desenvolvendo seus mecanismos próprios de transmissão do conhecimento” (Idem, p. 14.)

Existem assuntos relativos às Festas que, se tratados de maneira transversal dentro das escolas, preencheriam lacunas historicamente excludentes dos menos favorecidos, como também aproveitar para pensar em um Natal mais brasileiro, refletindo, tanto quanto possível, os valores de nosso patrimônio artístico-cultural. É um momento que os pobres se levantam, dizem sua voz, apresentam sua resistência, e para aqueles que sabem ver, está aqui o grito de libertação, o grito de justiça, o grito de vida nova. (depoimento do Padre Medoro de Souza, da Igreja Matriz de Valença/RJ, para o documentário Dias de Reis, de Lúcia Beatriz Torres e Raphael Cavalcante,2006).

Bibliografa:

Silva, Affonso Furtado. Reis Magos: história, arte, tradições. Rio de Janeiro, Léo Christiano Editorial, 2006.

Mâle, Émile. L’Art Religieux de XII siècle, inserido no Gazette de Beaux Arts (1904).
Câmara Cascudo, Luís de. Dicionário do Folclore Brasileiro.9a edição. Rio de Janeiro, Ediouro, 1998.

Revista Mundo e Missão. https://www.pime.org.br/mundoemissao/evanincultigreja.htm.

Passarelli, Ulisses. Reisados Brasileiros: tipologia, 2003.

Diniz, Domingos. As Folias de Santos Reis, 2007. www.aguacomprida.mg.gov.br/hist_folia.html. (publicado pela Comissão Mineira de Folclore)

Rocha, José Maria Tenório. Folguedos e danças de Alagoas: sistematização e classifcação. Maceió : Depto da Assuntos Culturais, 1984.

Pereira, Edimílson. A Educação pela Festa, para “Carranca” – Órgão informativo da Comissão Mineira de Folclore (Ano 2, nº. 23,agosto de 1997).

Dias de Reis, documentário de Lúcia Beatriz Torres e Raphael Cavalcante (2006).

Notas

(1) Jornalista e Radialista. Graduada em Comunicação Social pela UFRJ.

(2) Produtor Cultural.

(3) Este e outros textos deste artigo são baseados no livro Reis Magos: história, arte, tradições – fontes e referências (Silva, Affonso Furtado da. Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial, 2006).

(4) É interessante assinalar, como exemplo, a existência, até hoje, dos Grupos de Stern- singers (Cantadores da Estrela), atualmente apoiados por uma organização missionária alemã, Kindermissionwerk , que desenvolve projetos de educação cristã, em nível mundial, com crianças carentes.

(5) Essa celebração acontece desde 6 de janeiro de 1336, conforme registrado por Muratori (“ Rerum Italic Scriptors”, Milan, 1728, t. XII, p. 1018).

(6) Revista Mundo e Missão – www.pime.org.br/mundoemissao/evanincultigre- ja.htm.

(7) Em um de seus muitos trabalhos sobre os folguedos natalinos.

Este texto integra o boletim do programa “Festas de Santos Reis” da série “Aprender e ensinar nas festas populares”, abril, 2007. www.tvebrasil.com.br/ salto/

Do livro: Cultura popular e educação. Organização René Marc da Costa Silva. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação a Distância, 2008.

 

 

Nos passos da Folia de Reis

FOLIA DE REIS DE SOROCABA

 

O fato que intriga quem se dispõe a desvendar os mistérios do culto aos Reis Magos (ou Três Reis Santos, ou ainda Santos Reis) é o quanto essa devoção cresceu e se desenvolveu em torno de um relato parcimonioso de um dos quatro evangelistas, Mateus, a saber; o qual em poucos versículos conta a saga dos enigmáticos personagens. Como, com tão poucas informações, pode se criar um culto devocional de tamanhas proporções e de tão complexos ritos? Nenhum outro evangelista se dispôs a escrever sobre os Santos Reis. Isso até é explicável quando se recorda que o evangelho de Mateus tem por preferência de público os judeus (Mears, 1997). Assim, o relato da visita dos Reis Magos (os quais Mateus nomeia apenas de Magos do Oriente) acaba sendo uma inferência para o cumprimento da profecia descrita no Salmo 72:10-11[1] e assim provar aos judeus que Jesus Cristo era o esperado Messias das profecias. Como o escopo dos outros evangelhos era a conversão dos povos gentios, não havia a necessidade de se apegar ao cumprimento de profecias que diziam respeito apenas aos judeus. No entanto, uma narrativa que não encontra eco e nem respaldo em qualquer outro evangelho (e mesmo em todo o Novo Testamento) acabou por criar, no imaginário popular, uma das mais profusas venerações catolicistas.

As lacunas deixadas pelo texto bíblico foram supridas pela tradição oral e os relatos apócrifos. A antiga Pérsia parece ser a procedência desses personagens, pois que os sacerdotes persas eram chamados de magos. Porém, a palavra oriente, naquela época, poderia significar tanto a Arábia, como a Mesopotâmia, a Babilônia ou a Pérsia. A tradição oral posterior ainda levantou a hipótese de que viessem da Grécia (Europa), da Índia (Ásia) e do Egito (África), representando os três continentes conhecidos.

Uma antiga tradição diz que os Magos são provenientes de Tarsis (Melchior), Arábia (Gaspar) e Etiópia (Baltazar) e descendentes diretos de Job. "Devido à sucessão de gerações e como resultante da natural miscigenação, é que os Magos sendo parentes, mas que viveram em regiões diferentes, possuíam cor epidérmica diversa”.(Calafiori, 1993).

Acredita-se que os Magos do Oriente eram três em número, devido ao número de presentes dados: ouro, incenso e mirra. Para os Padres da Igreja simbolizavam a realeza (o ouro), a divindade (o incenso) e a paixão (a mirra) de Cristo. Quanto aos nomes, chegou-nos como sendo Gaspar, Melchior (ou Belchior) e Baltazar (ou Baltasar). O "Dicionário Enciclopédico da Bíblia" (op.cit.) diz que esses nomes são mencionados somente a partir do século VIII. As histórias orais dizem que os magos foram depois batizados por Tomé. Encontramos na obra do prof. Rosário Farâni Mansur Guérios [2] a etimologia dos supostos nomes dos magos: Gaspar, persa: Kandswar: "tesoureiro"? ; Baltazar, assírio-babil., "o deus Baal" projeta (shar) o rei (usur); e Melquior, hebr. Malkiur: "meu (i) rei (malk) é luz (ur)".

A devoção aos "Santos Reis Magos" parece existir desde o cristianismo primitivo. Foram eles, segundo a própria Bíblia, quem primeiro adoraram ao Cristo, quem reconheceram a sua divindade. O padre Ricardo Dias Neto, doutor em Teologia, afirma que nas catacumbas romanas, local em que os cristãos primitivos fugiam das perseguições de Roma, existiam inscrições, representando os magos. Nessas gravuras os magos estariam representados com chapéu típico dos persas.[3]

A Festa da Epifania (Revelação ou ainda amanhecer da luz do dia) realizada em 06 de janeiro era, originalmente, uma comemoração de vários fatos relativos a Cristo e, em especial, a revelação de sua divindade ao mundo pagão. Após, a data tornou-se especificamente como Festa de Reis Magos, pois estes foram, em tese, os primeiros a revelar a divindade de Cristo para o mundo.

Baseando-se na tradição oral, mais uma vez, encontramos relatos sobre a descoberta, no século IV, dos ossos dos magos, transferidos para a Igreja de Santa Sofia, em Constantinopla. Posteriormente, para Milão e, no século XII, mais precisamente o ano de 1164, para a cidade de Colônia, por intermédio de Frederico Barbarossa, para serem depositados numa arca (relicário) de ouro, na Catedral de Colônia (Köln), Alemanha. Na própria Catedral, pode-se ver, outrossim, vitrais representando os reis magos, datados de 1310. Por questões óbvias, os Reis Magos foram eleitos patronos da cidade de Colônia[4].

Câmara Cascudo ("Dicionário do Folclore Brasileiro") diz que no século XVI "inicia-se a dramatização com canto e dança, recebendo contribuição dos cantos populares e a produção literária anônima em louvação ao Divino Natal".

O certo é que a figura dos Reis Magos acompanha o Brasil desde sua colonização: o Forte dos Reis Magos, em Natal (RN), foi fundado em 06 de janeiro de 1598. Além disso, é óbvio que a catequização dos índios pelos jesuítas tinha melhores resultados quando estes utilizavam os recursos da imagem. Como melhor explicar, então, para os índios sobre o nascimento de Jesus do que utilizando o presépio? E no presépio está implícita a figura dos Reis Magos.

A devoção foi uma conseqüência. Com o nome de Folia existe no Brasil um grande número de grupos devocionais dos santos católicos: São Benedito, São José, Divino Espírito Santo e Santos Reis. Em Portugal, segundo Câmara Cascudo, folia era uma dança rápida ao som do pandeiro ou adufe. Com o passar do tempo foi se modificando e hoje tem características próprias.

Geralmente as Folias cantam em devoção aos santos, louvando e pedindo auxílio para a Festa do padroeiro. Folia de Reis, portanto, é um grupo de pessoas que tem devoção aos Santos Reis (os Reis Magos que visitaram o Menino Jesus) e saem durante o período do Natal cantando nas casas e pedindo ofertas para a realização da Festa de Santos Reis no dia 06 de janeiro.

Cada Folia tem a sua tradição, de acordo com a região, com os ensinamentos passados de geração para geração, com a forma de entendimento de cada mestre ou embaixador (aquele que lidera uma Folia). Portanto, não se pode afirmar que uma Folia de Reis tem que ter um exato número de foliões, de instrumentos musicais, de cor de roupas ou bandeiras, que deve saber declamar um verso específico etc... Cada Folia tem a sua peculiaridade.

A de Sorocaba, por exemplo, costuma apresentar-se como Companhia de Santos Reis, evitando o nome folia, termo que hoje em dia, pela semântica, é associado à farra, baderna. Outras regiões utilizam nomes como Terno de Folia de Reis, Reisado, Folia de Santos Reis, Terno de Reis entre outros.

A Companhia de Santos Reis de Sorocaba é formada basicamente por migrantes paranaenses e mineiros, muito embora haja também paulistas. As Folias carregam a bandeira que é o símbolo de sua devoção, sua guia. A bandeira segue a frente do grupo. Os instrumentos musicais da Companhia de Santos Reis de Sorocaba são os seguintes: violas, violões, pandeiros, caixas. As violas e violões são enfeitados com fitas coloridas.

Em Sorocaba, a Companhia de Santos Reis varia de 15 a 20 componentes. Alguns estão desde a fundação como o senhor José Coppi, Eva Borges de Andrade, José Pedro da Fonseca (Zé Mineiro), Maria Cândida da Fonseca, Carmelino de Oliveira, Ercílio Nazário, Izaltino Alves Moreira. Outros são componentes variantes que participam um ou mais anos e acabam abandonando a Companhia. A maioria das vezes em que isso ocorre deve-se ao fato do trabalho ser incompatível com as funções na Companhia.

A Companhia está assim dividida:

Embaixador (em outras companhias recebe também o nome de Mestre, Capitão, Gerente ou Chefe) – é quem puxa as cantorias e lidera o grupo. O embaixador deve conhecer as tradições e toadas de Folias de Reis. Existem ocasiões que exigem do embaixador esses conhecimentos. O senhor José Coppi, embaixador da Companhia de Sorocaba, conta sempre que houve situações em que a energia ambiental de uma casa era tão negativa que os instrumentos musicais da Folia se desafinavam sozinhos. Quando saiam daquele local os instrumentos voltavam à afinação. A Companhia conseguiu cantar graças aos conhecimentos do embaixador, o qual cantou uma toada especial para “quebrar” a sintonia daquele negativismo.

Contra-mestre – é a segunda voz, acompanhando a do embaixador.

Bandeireira – é quem carrega a bandeira, a guia da Companhia.

Bastião (chamados em outras folias de palhaços, alferes, mascarados, Mateus, Morongo, Marengo, Pastorinhos, Malungos) – são os mascarados, vestidos com roupas coloridas e segurando em suas mãos a espada (confeccionada em madeira). Há muitas histórias que explicam o surgimento desses personagens. A mais comum é a que eram espias de Herodes que seguiram os Magos para encontrar o Menino Jesus e matá-lo. Ao encontrarem o Menino acabaram se convertendo. Com receio de serem mortos por Herodes, vestiram uma máscara e viajaram com os Santos Reis. Iam à frente, fazendo graça e micagens para que Herodes não desconfiasse que eram soldados. Na Companhia de Sorocaba há dois ou três desses personagens, dependendo do ano. É o Bastião quem recolhe as ofertas, anuncia a chegada da bandeira nas casas, pergunta se o dono da casa aceita a visita, descobre as ofertas escondidas, “quebra os atrapalhos” (gestos ou cerimoniais tradicionais feitos por quem conhece a tradição com intuito de testar os conhecimentos da Companhia ou mesmo segura-la por mais tempo na sua presença. Um exemplo é o cruzeiro de rosas, confeccionado no chão, em frente à porta de entrada. A Companhia não pode entrar no local sem que o Bastião pronuncie alguns versos “secretos” para quebrar aquele encanto. Se o Bastião não souber os versos, cabe ao embaixador essa tarefa). No site da UNICAMP (www.unicamp.br/folclore) há a informação de que os “palhaços” representariam o mal. “Segundo explicação dos próprios foliões, os mascarados representam o mal, sendo a concretização dos soldados de Herodes ou do próprio demônio. Com essa vinculação ao mal, os palhaços seriam impedidos de tocar a bandeira sagrada da Folia, nunca podendo ficar à sua frente no cortejo. Há outras interdições para os palhaços, como a impossibilidade de se aproximarem do presépio ou, em alguns casos, de só entrarem na casa visitada após os cantos finais, ainda assim retirando as máscaras”. Apesar da Companhia de Reis de Sorocaba também reconhecer que exista uma estreita relação entre o Bastião e a representação do mal, esse personagem tem papel fundamental no grupo, não existindo para ele as restrições acima observadas (não se aproximar do presépio, não tocar a bandeira etc...). Ao contrário, a louvação ao presépio, em forma de profecia recitada, cabe, na maioria das vezes, justamente ao Bastião.

Apontador de prendas – anota todas as ofertas recebidas em um caderno.

Foliões – o restante da Companhia, dividido por vozes (quinta, contra-tala, tala, requinta...) e instrumentos musicais.

Ao contrário de algumas outras Companhias, a de Sorocaba tem em seu corpo a presença, cada vez mais marcante, de mulheres. Em outras regiões brasileiras é comum nas Folias a presença de pessoas caracterizadas de Reis Magos como personagens do grupo.

Não encontramos registros históricos acerca da existência de outras Folias de Reis em Sorocaba. Parece ser um costume não muito comum na cidade. Entretanto, a data de 06 de janeiro sempre foi comemorada, como a data da Epifania ou mesmo como comemoração ao dia de São Benedito pela sua Irmandade.

Na década de 1930 encontramos notícia da existência de um grupo de “Pastorinhas” em Sorocaba que se apresentaram no dia 05 e 06 janeiro. As Pastorinhas são grupos femininos, geralmente de meninas (muito embora haja grupos de jovens e de senhoras adultas), e que cantam o nascimento de Jesus em casas de famílias.

O jornal Cruzeiro do Sul noticiou assim:

 

Santos Reis

Com esse nome, e também com o de Epiphania, a Igreja offerece aos fiéis, amanhã, a primeira das grandes festas do anno christão, iniciado no Natal. Três manifestações do Filho de Deus são marcadas nesta data: no baptismo, nas bodas de Caná e aos magos.

O dia é santificado de guarda, havendo missas consoante o horário dos domingos. No evangelho (Math. II), narra-se que uma grande estrella conduziu os reis Gaspar, Balthasar e Melchior ao presepe, onde acharam o Menino com sua mãe Maria, e o adoraram.

“As Pastorinhas”

Sob a direção do sr. Heitor Nunes e esposa d. Cassilda Nunes exhibe-se hoje, ás 20 horas, na Liga Catholica, o grupo das pastorinhas, engraçado conjunto infantil que reproduz interessantes costumes do Natal no norte brasileiro. A entrada é franca.

(Cruzeiro do Sul - quinta-feira, 05.01.1933 – exemplar nº 7771 – 1ª página.).

 

Duas edições posteriores, na de número 7773, primeira página, no dia 09 de janeiro de 1933, o Cruzeiro do Sul voltou a noticiar sobre o grupo de Pastorinhas da cidade de Sorocaba. Foi esta a matéria que encontramos publicada:

 

“As Pastorinhas”

 

Reproduziu-se com muito agrado, na véspera de Reis, na Liga Cathólica, onde se achavam muitas famílias, a exhibição das pastorinhas, engraçado grupo typico infantil, á moda dos que se apresentam no norte do paiz nos dias de festa de fim de anno. Como da primeira vez, o conjunto estava bem ordenado e ensaiado pelo sr. Heitor Nunes e esposa d. Cassilda Nunes, a quem devemos o bello espectáculo. As pastorinhas eram Jean Worthington (anjo), Walter Carneiro (pastor), Clarisse Lobo (pastora mestra), Mercedes Carneiro (florista); Lady Mestre (Saloia), Nilza Carneiro (cigana), Lourdes Argento (religião), Iracema Leite (cabocla), Maurício Affonso e Rosalina Rosa (galegos), Annita e Affonso (zabumba), além de muitas pastoras comparsas. Os números estavam bem musicados, sob a regência do sr. Antonio Domingues dos Santos.

Houve variedade final.

 

A origem da Companhia de Santos Reis de Vila Formosa, em Sorocaba, é recente. Começou em 1990, quando o senhor José Coppi, embaixador (mestre) da Companhia, recebeu uma carta convite do senhor Benedito Parisi e do senhor Tarcísio Amaro para organizarem aqui nesta cidade uma Companhia de Reis.

O convite foi logo aceito. Organizou-se então a Companhia de Santos Reis[5] de Vila Formosa. O senhor José Coppi, nessa época, já não mais residia na Vila Formosa e sim na Vila Angélica. Entretanto, como a maioria dos foliões reside na Vila Formosa e por ser ali a sede da Festa de Chegada de Reis, convencionou-se a denominar, aliás, com muita propriedade, Companhia de Santos Reis de Vila Formosa.

José Coppi, folião desde 1965, anteriormente embaixador no Paraná, utilizou mais uma vez a sua experiência para conduzir em Sorocaba / SP a nova Companhia que estava se formando.

Os personagens da Companhia são: o embaixador ou mestre (aquele que puxa a cantoria), o contra-mestre, a bandeireira (que carrega o estandarte), o apontador de prendas, os Bastião (conhecidos por palhaços, personagens cômicos que utilizam máscara), e os foliões divididos por vozes (tala, requinta, contra-tala, contra-tipe, baixão...) e instrumentos. A Companhia de Santos Reis de Vila Formosa é composta por cerca de 15 pessoas, divididos em um grupo de oito a seis vozes (nem todos na Companhia cantam).

Os instrumentos musicais utilizados pelos foliões são: 2 caixas, 1 viola, 3 violões e 1 pandeiro. Os instrumentos de corda são afinados em sol maior.

A viola e violões são enfeitados com fitas coloridas. Cada fita pode ter um simbolismo. Geralmente as cores que se utilizam são: amarela, cor-de-rosa, azul (que podem simbolizar a Virgem Maria, sendo que a cor-de-rosa também tem por signo os doze apóstolos de Cristo) e branca (o Divino Espírito Santo).

A bandeira, de pano comum, de cor verde, também é enfeitada com flores de papel crepom e fitas coloridas. Nela está a imagem dos Três Reis Magos e de Nossa Senhora com São José. É costume da população amarrar fitas na bandeira como sinal de devoção ou de cumprimento de promessa. A bandeira fica, assim, mais enfeitada. Os enfeites aumentam mais quando populares prendem na bandeira os ex-votos (fotos, fita, blusinhas ou outros objetos).

Esses ex-votos acompanham a bandeira em toda a sua jornada. Ao término desta, então são tirados e jogados em água corrente ou levados até a Aparecida do Norte. Não se pode jogar esses ex-votos em água parada, queimá-los ou guardá-los na casa dos foliões.

Indubitavelmente os personagens que despertam maior curiosidade são os Bastião. A máscara dele, de couro e pano, imitando barba é realmente inusitado para quem desconhece as folias de Reis. O senhor José Coppi explicou-nos sobre o porquê da máscara dos Bastião: "Eles usa para esconder o rosto para não ser reconhecido. Porque o Herodi saiu e não foi reconhecido. Ele saiu para defender o Deus-Menino, mas... para chegar até onde estava o Deus-Menino ele escondeu o rosto..." "Os Bastião era o Herodi que ia defender o Menino-Deus dos judeus, para livrar da matança”.

Os Bastião sempre usam uma espada ou facão de madeira. É com ele que defendem a bandeira. Se houver um encontro de bandeiras o Bastião deve defendê-la, então os Bastiões dos dois grupos "cruzam espada, sem dó...".

Quanto às toadas, as completas (nascimento e padecimento de Cristo) possuem 25 versos, as simples, apenas de louvação e pedido de ofertas para a bandeira são menores, de dez versos e de duração de seis minutos. A forma de cantar as toadas varia de acordo com a sua procedência. A Companhia realiza basicamente três tipos de toadas: a paulista, a baiana e a mineira. A paulista é mais simples, podendo ser realizada com quatro vozes (o embaixador e o contra-mestre, mais duas vozes que respondem em coro), não havendo aquele grito característico de prolongamento de final de verso cantado em resposta. Na baiana e mineira já se faz necessário a equipe completa (mínimo de oito vozes), sendo característica marcante o grito da voz contratala (na Companhia de Santos Reis de Vila Formosa essa voz é feita pela dona Maria Cândida da Fonseca que sustem o grito por cerca de 15 segundos!).

Há um complexo conjunto de tradições, rituais e místicas que se inserem no universo das Folias de Reis. Reminiscências de culturas cristãs primitivas, pagãs e até mesmo de rituais ameríndios aculturados são mantidos pelos foliões, consciente ou inconscientemente. Muitas dessas tradições são reforçadas pelas histórias orais e interpretações populares (ou complementos) de textos bíblicos.

Os foliões chamam esse universo de “profecias”. Quando explicam algo, é comum dizerem: “Faz parte das profecias”. Com esse nome designam as passagens da Bíblia (ou de textos que a ela se referem) em versos e aproveitadas nas toadas ou declamações (louvação ao presépio, nascimento de Cristo, fuga para o Egito etc...).

Exemplo de “profecia” declamada diante do presépio:

 

“Ao vinte e cinco de dezembro

Tudo isso aconteceu

Naquele dia nasceu

o nosso Menino Deus

Os Três Reis Santos quando soube

viajaram sem parar

cada um trouxe um presente

Pro Deus Menino louvar

Os Três Reis Santos viajaram

Dia e noite, noite e dia

para ver o Deus Menino

Filho da Virge Maria

Naquele instante estava lá

Todos os animais que se via

também estava a vaquinha

e o camelo que chegava

E o galo que cantava

e a estrela que brilhava

que todo mundo se via

o meu amado Menino

ouvia sempre a dizer

que de uma Virge Imaculada

Jesus havia de nascer

Pois eu quero adorar meu Deus

com meus joelhos no chão

Pedir a Divina benção

dos meus pecados, perdão

Bendito seja o Menino

que nessa terra nasceu

o mundo inteiro alegrou

quando aquela estrela apareceu

pois eu vim com meus Três Reis

fazendo o que me disseram:

Façam no Oriente

o que em Belém fizeram

Os Três Reis lá em Belém

o menino visitaram

voltando para o Oriente

seu presépinho eles formaram

Mostrando como se deu

na hora que eles voltaram

a visita dos quatorze hinos

que eles cantaram

Pura Virgem, Pura Nossa

Mãe do Nosso sul do Bem

seja na terra ou no céu

Glória para sempre, amém “.

(Do CD “Cantadores – o folclore de Sorocaba e região” – Folia de Reis de Sorocaba/SP – produzido por Carlos Carvalho Cavalheiro).

Algumas Companhias de Reis utilizam toalhas em torno do pescoço de seus foliões. A Companhia de Santos Reis de Vila Formosa (Sorocaba) começou a utilizar esse apetrecho no ano de 2002. O embaixador José Coppi informa que a toalha, para todos os foliões, não tem um significado especial. Para o embaixador, no entanto, serve de elemento que o distingue dos outros elementos da Companhia. Nesse caso, a toalha deve ser branca.[6]

As máscaras dos Bastiões são outra curiosidade que chama a atenção. Diz-se que os Bastiões usam as máscaras para esconder os seus rostos, eis que eram espias do rei Herodes e que se converteram ao encontrar o Menino Jesus. Resolveram, assim, acompanhar os Três Reis Magos. Para tanto confeccionaram máscaras para que Herodes ou seus soldados não os reconhecessem. Essa é mais uma das tradições das Folias de Reis.

Outrossim, é corrente a história de que os Santos Reis receberam de presente da Virgem Maria um manto, em agradecimento a visita ao Menino Jesus. Quando se afastaram, já na viagem de retorno ao Oriente, abriram o manto (que estava dobrado) e viram nele a cena da visitação bordada, com os Santos Reis, a Sagrada Família, os animais e os pastores. Então, fizeram do manto uma bandeira e formaram a primeira Companhia de Reis, anunciando ao mundo o nascimento de Jesus.

Com relação à bandeira há ainda a crença de que a mesma deve ficar guardada quando não for a época da jornada. Porém, deve permanecer sempre enfeitada para não quebrar o seu encanto.

As fitas coloridas que enfeitam a Bandeira devem ser costuradas e nunca amarradas com nó cego, sob pena de “amarrar” a Companhia, ou seja, atrapalhar o desenvolvimento natural da jornada. Alfinetes, fitas amarradas ou qualquer outra coisa estranha que possa “amarrar” a Companhia é cuidadosamente vistoriada pela bandeireira Eva Borges de Andrade toda a vez que inicia uma jornada e que a Bandeira sai de seu pouso.

Por fim, as tradições relacionadas com o Bastião. Chamado também de Alferes, Mateus, Palhaço, Pastorinho, Morongo, Marengo, Malungo... esse personagem é cômico e, ao mesmo tempo, responsável pela coleta de ofertas. É ele quem pede as ofertas. É comum, na zona rural principalmente, fazer o Bastião “sofrer” antes de obter a oferta. Às vezes o dono da casa se esconde e o surpreende, à traição, e trava uma luta corporal de agarramento, sem agressão física (socos, pontapés, etc...). Se o Bastião se sair bem, recebe a oferta[7].

Em outros locais, solta-se um porco ensebado para que o Bastião o recolha. O palhaço corre atrás do porco, mas quando agarra, este lhe escapa das mãos[8]. Esconder ofertas para que o Bastião procure e encontre é outra prática comum.

O Cruzeiro de Flor é outra tradição antiqüíssima e que acompanha a Folia de Reis. Trata-se de uma cruz “desenhada” no chão com flores. Ao deparar com o Cruzeiro o Bastião (e somente ele, segundo dona Eva Borges de Andrade[9]) deve recitar “profecias”, palavras especiais. O cruzeiro é formado por quatro braços. Para cada um deles o Bastião deve recitar uma “profecia” decorada e tradicional. Conforme encerra uma profecia, o Bastião desmancha um dos braços do cruzeiro com a ponta do seu facão, até desfazê-lo ao todo. Somente depois disso é que a Companhia pode adentrar no recinto e cantar as toadas. Ao contrário das toadas cantadas pelo embaixador, que são de improviso, as “palavras” ou “profecias” ditas pelo Bastião são decoradas.

 

Antes de haver o Dilúvio

o mundo todo era certo

quando Cristo veio à Terra

deixou tudo descoberto

para todas devoção

deixou um caminho aberto

Deus te salve a Santa Cruz

onde Cristo foi pregado

que morreu por nosso amor

e depois foi ressuscitado

tirando um braço da cruz

fica um esquadro dobrado

Enquanto São José

trabalhava preocupado

tirando outro braço da cruz

fica um poste contínuo

Na casa de São Vicente

e na capela do Divino

Vendo o Cruzeiro desmanchado

nós podemos chegar até Belém

encontrar com Deus Menino

que a Virgem Maria tem[10].

 

Além das declamações (chamadas de louvações) muitos ainda pedem aos Bastiões que façam o corta-jaca, espécie de brincadeira e dança, restrita aos palhaços, e que serve como pagamento pela oferta recebida. O devoto de Santos Reis oferece a esmola, mas exige como paga que os Bastiões realizem a corta-jaca. Eles dançam, pulam, simulam batalha entre si... e está paga a oferta.

É de responsabilidade do Bastião, ainda, não permitir que lhe roubem a máscara ou a espada, afim de que a bandeira não fique “presa”. Para desprender a bandeira, o Bastião (ou o embaixador) deve dizer umas “palavras secretas”[11]. Dizendo-as, a bandeira estará livre para prosseguir a jornada.

Os devotos de Santos Reis costumam pendurar ex-votos (fotos, objetos, fitas...) na Bandeira como agradecimento por graça alcançada. Esses ex-votos não podem, ao final da jornada, permanecer na bandeira e nem mesmo serem jogados no lixo ou queimados. Devem ser jogados em água corrente ou levados a um centro de peregrinação como a cidade de Aparecida, no estado de São Paulo.

Outra crença difundida entre os foliões é a de que todo folião tem um antecedente histórico na família: um pai, avô, bisavô...folião. Participar de uma Folia de Reis, para os devotos, é uma questão “hereditária”.

Compõe ainda o universo das Folias de Reis as toadas, ou seja, os cantos de devoção entoados durante a jornada, nas visitas às casas e igrejas, bem como em qualquer outra ocasião especial.[12] As toadas, em relação à música, possuem sempre as mesmas melodias, sendo que do repertório existe pouco menos de uma dezena de variações. Quanto à letra, é de improviso e composta pelo embaixador. Há uma segunda voz, a do contra-mestre, que procura repetir ou apenas trautear os versos cantados pelo embaixador. Depois, a Companhia toda repete os mesmos versos. Geralmente, os versos são repetidos, ou seja, cantados duas vezes. Assim, numa composição de quatro versos por estrofe, os dois últimos versos (sendo o último a repetição do penúltimo) irão rimar com os dois últimos versos da estrofe seguinte. Mas isso não é regra geral em todas as Companhias de Reis. Aliás, como aqui já foi dito, nada pode ser considerado como definitivo e genérico para todas os grupos de Folias de Reis, com exceção a devoção que todos prestam aos Santos Reis. Há toadas que não seguem essa forma. No norte de Minas Gerais há toadas que seguem o esquema de rimas ABCCDDCC[13].Um exemplo de toada da Companhia de Santos Reis de Vila Formosa em Sorocaba:

 

Segurou nossa Bandeira

Ai, meu Deus

Segurou nossa Bandeira

Ai, meu Deus

Com prazer e alegria oi la la lai

Ai, com prazer e alegria

Ôôôooooo...

Deve ser abençoado

Ai, meu Deus

Deve ser abençoado

Ai, meu Deus

Com a Sagrada Família oi la la lai

Ai, com a Sagrada Família

Ôôôooooo...

Pra cumprir sua promessa

Ai, meu Deus

pra cumprir sua promessa

Ai, meu Deus

Que ele tem por devoção oi la la lai

Ai, que ele tem por devoção

Ôôôooooo...

Nóis agora se despede

Ai, meu Deus

Nóis agora se despede

Ai, meu Deus

Pra voltar no outro ano oi la la lai

Ai, pra voltar no outro ano

Ôôooooo...

Quem tiver sodade dele

Ai, meu Deus

Quem tiver sodade dele

Ai, meu Deus

Vai ao terço do seu dia oi la la lai

Ai, vai ao terço do seu dia

Ôôooooo...

 

Outro exemplo de toada:

 

Toada de visita a uma casa

 

Quando nessa casa entrei

Quando nessa casa entrei

Reparei nos quatro cantos

‘parei nos quatro cantos.

 

Avistei esta senhora

Avistei esta senhora

E os seus quadros de santos

Os seus quadros de santos.

 

Também pede a sua oferta

Também pede a sua oferta

Do alcance da senhora

Do alcance da senhora.

 

Vamos lá pra agradecer

Vamos lá pra agradecer

A oferta da bandeira

A oferta da bandeira

 

Santos Reis que lhe abençoa

Santos Reis que lhe abençoa

No correr da vida inteira

No correr da vida inteira

 

Ela agora lhes convida

Ela agora lhes convida

Pra senhora e pra família

Pra senhora e pra família

 

Pra ajudar a rezar o terço

Pra ajudar a rezar o terço

Dia seis de janeiro

Dia seis de janeiro.

 

Os versos das toadas são criados de acordo com o momento. Por exemplo: se numa casa o embaixador avistar uma imagem de santo, certamente construirá seus versos baseados nesse evento. De acordo com a reação das pessoas que recebem a visita da bandeira (comoção, choro, alegria etc...) o embaixador também pode criar seus versos. Entretanto, sempre é enaltecida a faceta religiosa da jornada. E é essa o aspecto funcional da Companhia de Santos Reis, sua própria razão de existência.

 

Carlos Carvalho Cavalheiro

 

NOSSO MUITO OBRIGADO HÁ TODOS OS AMIGOS DE SOROCABA

 

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04/11/2011 13:34

“Em Cristo somos novas criaturas”

“Em Cristo somos novas criaturas”

Data: 23.12.2010260 visualizações
Pe. Nilton Cesar Boni cmf
“Em Cristo somos novas criaturas”



O aniversário do nascimento de Jesus é uma realidade para nós cristãos. Há mais de dois milênios os seguidores de Cristo se reúnem para celebrar a vida e a história d’Aquele que transformou a humanidade. O mundo tem um antes e um depois de Cristo. O antes da espera da promessa de Deus ao povo e o depois com o cumprimento da promessa salvadora. Nós vivemos no tempo de Jesus e já recebemos o consolo e a libertação das nossas culpas.
Nós já somos bem-aventurados pelo fato de acreditarmos e professarmos nossa fé n’Ele. Nossa vida espiritual encontra espaço na comunidade de Cristo e sempre que nos envolvemos com seu mistério de amor, passamos pela transformação vinda de sua magnífica luz. Não é um mistério qualquer que se celebra no Natal e sim o mistério da redenção. Jesus Encarnado conduz-nos pela mão. Toma nossos anseios e nos completa para sermos divinos e eternos, nascidos da graça e ressuscitados.
O Natal deve se converter em tomada de consciência e posse da fecunda ação de Cristo na história pessoal de cada batizado. Se parássemos para refletir sobre a grandeza da Noite Santa, certamente ficaríamos silenciosos e cheios de entusiasmo por perceber que um rebento novo começa a sair de nossos corações convertendo nossa existência em divindade. A luz de Cristo que nasce não fica aprisionada e nem se intimida. Ela se expande até os céus e volta glorificada e reconhecida pelos anjos, pelos pastores, pelo povo sedento de um Messias. Imaginemos a cena do nascimento de Jesus envolto em amor, testemunhado pelos seus pais sagrados, pelas criaturas simples e pelo céu que também se abre para nós hoje.
A poesia e o encanto que esta cena nos traz continuam viva na essência de cada homem e mulher que espera pelo nascimento de quem nos dá a paz. Em Cristo que nasce somos novas e autênticas criaturas, pois o que era velho já passou, a inquietação se volta em ternura, da complexidade nasce a simplicidade e assim se pode enxergar melhor que o Natal é o encontro do coração de Deus com o coração do homem, o maior presente do Criador para os sofridos da terra.
Aproveitemos esta oportunidade para fazer chegar ao coração de Deus o nosso agradecimento pela fé e comunhão com Jesus menino. Ao contemplar o presépio espera-se de cada cristão um re-posicionamento na vida, pois todo nascimento é um fato inédito que nos acrescenta algo e nos recorda um ideal, um projeto, uma missão: cumprir a vontade de quem nos chamou a estar com Ele. Ninguém pode ficar imóvel e acomodado diante de uma criança que traz nos olhos o brilho da vida plena em Deus.
Em Cristo que nasce somos novos e irrepetíveis; criaturas cheias de vigor e força, revestidos pela pureza da divina misericórdia. Transbordemos de amor no Natal de Jesus e que este seja o melhor de todos. Boas festas e um abençoado Ano Novo. Vamos descobrir nas festas que se aproximam que existe um Deus Menino que nos ama muito. Ele é apaixonado por nós e nos quer com Ele.
Feliz e Santo Natal a todas as famílias de boa vontade!


Pe. Nilton Cesar Boni cmf

 

 Os três reis



Gaspar era rei de Markash, o país de mar azul e praias brancas. Nele moravam homens e mulheres de pele clara, cabelos negros e olhos castanhos. Aos seus portos chegavam navios de todo o mundo que vinham para vender suas mercadorias exóticas. O comércio acontecia em todos os lugares, nos mercados das grandes praças e nas pequenas lojas de uma porta só, em vielas estreitas. Gaspar, da torre do seu palácio, contemplava tudo. Como rei ele deveria sentir-se feliz: todos lhe eram agradecidos e todos o amavam. Mas, a despeito de tudo isso, havia no seu coração uma tristeza incurável, nostalgia que mais doía quando o sol se punha sobre o mar incendiando as águas.
Por mais que se esforçasse o rei não conseguia sorrir. Gaspar convocou então os seus sábios e expôs-lhes o seu sofrimento. Os sábios lhe disseram que o remédio para a tristeza é o conhecimento. “A ciência é uma fonte de alegria“, eles lhe disseram. O rei mandou então vir professores e cientistas de todo o mundo, importou livros, estabeleceu bibliotecas, montou laboratórios, construiu observatórios astronômicos. Por anos se dedicou à aprendizagem dos conhecimentos da ciência. Agora estava velho. Sabia tudo o que havia para ser sabido sobre o mundo. Mas a ciência não lhe trouxe alegria. Ele continuava sem saber sorrir.
Era madrugada. A luz do sol já iluminava o horizonte. O rei já estava desperto. Na varanda do seu palácio ele contemplava os céus estrelados. Foi então que, olhando para o oriente, ele viu uma nova estrela, estrela que não se encontrava nos mapas dos céus que conhecia. Era uma estrela diferente porque, ao contemplá-la, ele ouvia uma música de indescritível beleza que o fazia feliz. E ele sorriu pela primeira vez. Deslumbrado, mandou vir os sábios que ainda dormiam, e mostrou-lhe a estrela. Mas os sábios, olhando na direção que o rei indicara, nem viram estrela e nem ouviram a música que ele dizia ouvir. Saíram, então, tristemente, convencidos de que o rei estava realmente velho. Os anos de senectude haviam chegado. Gaspar, indiferente à incredulidade dos sábios, ordenou que se preparasse um navio para uma grande viagem, na direção da estrela.
Balt-hazar era rei da Núbia, país montanhoso onde moravam homens e mulheres de pele negra e brilhante. As montanhas da Núbia eram cobertas de vegetação luxuriante, árvores gigantescas, frutas as mais variadas, onde viviam pássaros de todos os tipos. Por todos os lugares se viam riachos de água limpa, com remansos e cachoeiras. Era um país belo e fértil. Balt-hazar, da janela do seu palácio contemplava as montanhas e florestas que se perdiam de vista e pensava: “O Paraíso deve ter sido aqui...“
Entretanto, e a despeito da beleza e da fertilidade da terra, o rei não era feliz. Havia uma tristeza no seu coração, tristeza que ficava mais forte quando os pássaros cantavam seus cantos de final de tarde. O canto deles era belo e triste: o coração do rei era belo e triste...
O rei convocou os sacerdotes, videntes e profetas e falou-lhes sobre a sua tristeza. “De que me vale a beleza do meu país se o meu coração está triste?“, ele perguntou. Os homens santos lhe disseram que a tristeza era sinal de que sua alma estava distante de Deus. “Deus é uma fonte de alegria“, eles lhe disseram. Balt-hazar, então, mandou vir de terras longínquas, místicos e teólogos que lhe ensinassem os caminhos para Deus. Contratou também arquitetos e artistas para construir novos templos. E comprou os livros sagrados de todas as tradições religiosas do mundo. Por anos a fio ele se dedicou às coisas sagradas: leu, meditou, orou... Por fim, chegaram os anos da velhice. Balt-hazar conhecia tudo o que os homens sabem sobre os caminhos que levam a Deus. Mas o seu coração continuava triste, mais triste ainda quando os pássaros cantavam ao entardecer...
Já era madrugada. Balt-hazar, como de costume, levantou-se para as orações. Ele orava olhando para os céus, morada dos deuses. Foi então que, olhando para o horizonte, no lugar do sol nascente, ele viu uma estrela que nunca havia visto. Ao redor dela havia um arco-íris. Mas o estranho é que, ao contemplá-la, ele ouvia uma música de enorme beleza, semelhante à beleza do canto dos pássaros ao entardecer. Só que, ao ouvi-la, seu coração não ficava triste. Ao contrário; era inundado por uma alegria que nunca experimentara.
O rei mandou chamar os sacerdotes, místicos e profetas. “Vejam aquela estrela“, disse ele apontando para o horizonte. “E ouçam a música que sai dela!“ Os homens de Deus olharam na direção indicada mas nem viram estrela e nem ouviram música. Deixaram então o rei embriagado de alegria e comentaram, baixinho, entre si: “Nosso rei enlouqueceu. Isso quer dizer que o fim da sua vida está chegando...“ Balt-hazar, entretanto, mandou preparar cavalos para uma longa viagem, na direção da estrela.
Mélek-hor era rei de Lagash, o país dos desertos e das areias sem fim. Lá viviam mulheres de olhos amendoados e homens rudes de barba espessa. A sua alegria eram os oásis que pontilhavam as areias com o verde das palmeiras e o frescor das fontes. Foi num desses oásis que Mélek-hor construiu o seu palácio com enormes blocos de pedra branca na forma de uma pirâmide. Pirâmides, como se sabe, são figuras mágicas que garantem a imortalidade.
A aridez e solidão da vida do deserto não o incomodavam. Na verdade, ele as considerava desafios para o corpo e para a alma. Mas havia uma coisa que o fazia sofrer: uma melancolia indefinível que sentia ao contemplar os horizontes ondulados de areia que o sol poente pintava de vermelho.
O rei convidou seus amigos para um jantar e lhes falou sobre a sua melancolia. E eles lhe disseram: “É compreensível. Nosso país é muito árido. O que lhe falta, ó rei, são os prazeres da vida. Os prazeres o farão sorrir.“ Mélek-hor então, importou prazeres de todas as partes do mundo: vinhos, frutas, iguarias, músicos, artistas, mulheres lindas... Por anos ele se dedicou aos prazeres que há. Nisso ninguém o excedeu. Mas os prazeres não lhe trouxeram alegria. E ele, já velho, rezava em silêncio: “Não quero prazeres; quero alegria, quero alegria...“
A luz da madrugada anunciava que a noite chegava ao fim. O rei, do alto da sua pirâmide, tomava uma taça de vinho. Era hábito seu contemplar o sol nascente: isso sempre lhe dera prazer. Mas o prazer da beleza sempre lhe vinha misturado com tristeza. Mas, desta vez, não sentiu tristeza. Espantou-se ao perceber que estava alegre. E a alegria lhe vinha de uma nova estrela nunca vista que brilhava no céu. E - curioso! - ao contemplar a estrela ele ouvia uma melodia que o enchia de felicidade. Mélek-hor sorriu então pela primeira vez. Deslumbrado, mandou vir seus amigos. Apontou-lhes a estrela, falou-lhes sobre a música. Mas eles, olhando para os céus, não viram a estrela e nem ouviram a música. Amigos que eram, disseram ao rei: “Querido Mélek-hor, nosso rei amado: não há estrela, não há música. Tua mente já não percebe as coisas da terra. Ela navega nas águas do grande rio, na direção da terceira margem... Choramos porque sabemos que estás de partida...“ E tristemente se retiraram, entoando um silencioso requiem. Mas o rei, indiferente às palavras dos amigos, mandou preparar os camelos para uma viagem na direção da estrela...
Gaspar, navegava do norte, em seu navio, velas enfunadas por uma brisa fresca e constante. Balt-hazar, vinha do sul, em seu cavalo, por caminhos que cortavam matas verdejantes. Mélek-hor, vinha do oeste, em seu camelo, atravessando desertos com areias escaldantes.
Três reis, tão diferentes, tão distantes, nada sabendo um sobre os outros, numa viagem absurda, com que jamais haviam sonhado, na direção de uma estrela que só eles viam, e de uma música que só eles ouviam. Sim, com certeza haviam enlouquecido...
As brisas mansas que enfunavam as velas do navio de Gaspar repentinamente se transformaram numa horrenda tempestade com ventos furiosos. Seu navio, casca de noz, foi arremessado contra um rochedo e se despedaçou. Mas o mar se apiedou de Gaspar e um golfinho o levou, desacordado, para uma praia. Recuperado do medo, agora só lhe restava continuar a pé a sua jornada. Sem alternativas, o navegador se transformou em andarilho.
Caminhou muito. E aconteceu que, depois de muito caminhar, ele chegou a uma encruzilhada. Era aí que se cruzavam os quatro caminhos do mundo: o caminho que vinha do norte, o caminho que vinha do sul, o caminho que vinha do oeste e um quarto caminho... Olhando na direção do quarto caminho podia-se ver, no horizonte, a estrela que brilhava...
Havia ali, no meio da encruzilhada, uma estalagem chamada “Os quatro caminhos do mundo“. Foi nela que os três reis se encontraram. À noite assentaram-se à volta de uma mesa para comer: pão, queijo, frutas secas, vinho. E começaram a falar. A contar suas estórias. À medida que cada um deles falava os outros se enchiam de espanto. Que absurda coincidência! Como era isso possível? Que sendo três desconhecidos, vindos de três cantos do mundo, as suas estórias fossem a mesma estória. Eram iguais. Todos haviam sofrido a mesma nostalgia. Todos haviam visto a estrela que ninguém mais vira. Todos haviam ouvido a melodia que ninguém mais ouvira. Descobriram, então, que eram companheiros. Dali para frente viajariam juntos.
E assim foi. Por vários dias caminharam... Aconteceu então que, noite já chegada, chegaram a um minúsculo vilarejo. “Que vilarejo será esse?“, perguntaram. Gravado numa pedra estava o seu nome: “Beth-léhem“ “Estranho“, disse o erudito Gaspar: “Aprendi tudo o que há para ser aprendido sobre reinos, províncias, cidades e vilas. Mas nunca vi esse nome em qualquer um dos livros que li“. Mélek-hor acendeu sua lâmpada de azeite e iluminou, com sua luz bruxoleante, o mapa que abrira sobre o chão. “Aqui está ela“, ele disse marcando com o seu dedo um lugar no mapa. “Beth-léhem. Fica precisamente na divisa entre dois grandes reinos. À esquerda está o Reino da Fantasia. À direita está o Reino da Realidade. “Já li sobre esses dois reinos nos livros sagrados“, disse Balt-hazar. São reinos perigosos. Aqueles que vivem no Reino da Fantasia ficam loucos. Aqueles que vivem no Reino da Realidade ficam loucos também, loucos de outra espécie. Somente se salvam da loucura aqueles que vivem na fronteira entre os dois reinos. Esses ficam sábios e se tornam artistas. Pois Beth-léhem está precisamente na divisa entre o Reino da Fantasia e o Reino da Realidade...“
No vilarejo todos dormiam. O ar estava perfumado com flores de jasmim e magnólia. E havia um brilho no ar – milhares, milhões de vaga-lumes pousados nas árvores. Ovelhas baliam ao longe, enquanto o seu pastor tocava uma flauta... Era uma noite de paz. A estrela iluminava uma gruta. Os reis se aproximaram. Na gruta havia vacas, cavalos, burros, ovelhas. Era uma estrebaria. Mas, convivendo com os animais, uma pequena família: um jovem e uma jovem que amamentava um nenezinho recém-nascido. Era só isso. Nada mais.
Perceberam, então, que haviam se enganado: não era a estrela que iluminava a cena. Era o nenezinho que iluminava a estrela. E olhando bem para ela puderam ver, nela refletido como num espelho, o rosto da criancinha. Aí entenderam, deixaram de ser reis e se transformaram em sábios: “O universo é um berço onde uma criança dorme!“
Notaram, então, que uma coisa estranha acontecia quando olhavam para o nenezinho: eles perdiam a sua compostura real e eram dominados por uma vontade incontrolável de rir. E quando riam, ficavam leves e começavam a flutuar. Era assim: quem visse o menino se transformava em anjo...
Os reis, em meio aos risos e vôos, olharam cada um para o outro e disseram: “Nossa busca chegou ao fim. Encontramos a alegria. Para se ter alegria é preciso voltar a ser criança...“ Ato contínuo tomaram suas coroas, capas de veludo, dinheiro, ouro, jóias – pesadas coisas de adulto - e as depuseram no chão, ao lado das vacas e dos burros... Partiram leves, ora andando, ora pulando, ora voando, mas sempre rindo.
“Vou mudar de vida“, disse Gaspar. “É horrível ter de estar estudando ciência o tempo todo. Vou me transformar em poeta...“
“Eu também vou mudar de vida“, disse Balt-hazar. “É horrível estar rezando o tempo todo. Vou ser palhaço. O riso é o início da oração“.
Ao que Mélek-hor acrescentou: “E eu descobri o prazer supremo, que vem sempre acompanhado de alegria: brincar. Vou ser um fabricante de brinquedos. Quem brinca volta a ser criança. E quem volta a ser criança está de volta ao Paraíso.“
E assim partiram, cada um por um caminho. E se você, nas suas andanças, se encontrar com um poeta, um palhaço ou um fabricante de brinquedos, pergunte se ele não tem notícias de uns três reis...
(Correio Popular, Caderno

 

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Qual foi o primeiro milagre de Jesus?

Se alguém nos perguntasse qual foi o primeiro milagre de Jesus, não duvidaríamos em responder que foi o da água transformada em vinho durante uma festa de casamento, na cidade de Caná na Galiléia. O mesmo evangelho de São João diz isso expressamente: “Este foi o primeiro sinal de Jesus, em Caná, na Galiléia, com o qual mostrou sua glória, e seus discípulos acreditaram nele” (Jn 2, 11).

No entanto, para os outros três evangelistas (Mateus, Marcos e Lucas), esse não foi o primeiro milagre realizado por Jesus. Nem sequer se inteiraram deste. Para eles, não existe. E, em seu lugar, cada um relata outro “primeiro” milagre.

Assim, em São Marcos (e São Lucas), figura a cura de um endemoniado na sinagoga de Cafarnaum. E em São Mateus, a cura de um leproso depois do sermão da montanha.

Por que os evangelistas não estão de acordo sobre o primeiro milagre de Jesus? Por que cada um dá uma versão diferente? Porque eles não pretenderam contar a seus leitores o que historicamente fez Jesus com sua atividade milagrosa, senão transmitir-lhes uma mensagem religiosa, que cada um adequou como melhor lhe pareceu.

OS ESPÍRITOS DA SINAGOGA

O evangelho de Marcos, que é o mais antigo, relata assim o primeiro milagre de Jesus: “Jesus e seus discípulos entraram em Cafarnaum. E no sábado, foi à sinagoga e começou a ensinar. Todos ficaram assombrados com sua forma de ensinar, porque lhes ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas. Na sinagoga deles havia um homem possuído por um espírito imundo, que começou a gritar: ‘O que você quer de nós, Jesus de Nazaré? Veio destruir-nos? Eu sei quem você é: é o Santo de Deus’. Jesus então o repreendeu: Cale-se e deixe esse homem!’. O espírito imundo sacudiu violentamente o homem e, dando um forte grito, saiu dele. Todos ficaram assombrados e se perguntavam uns a outros: ‘O que é isto? Um novo ensinamento, cheio de autoridade. Dá ordens até aos espíritos imundos e é obedecido. E sua fama se estendeu rapidamente por todas as partes, em toda a região de Galiléia” (Mc 1, 21 28).

AR CHEIO DE ESPÍRITOS

Para entender o porquê Marcos conta este milagre como o primeiro de Jesus, deve-se considerar que ele escreve seu evangelho para os cristãos de Roma, isto é, para os cristãos de origem pagã. E quer convencê-los do enorme poder e da autoridade de Jesus.

Bem, para o ambiente pagão antigo, especialmente o romano, talvez não houvesse uma demonstração de poder maior que o exorcismo. Efetivamente, antigamente acreditava-se que muitas das doenças e dos males que as pessoas sofriam eram causados pelos demônios que entravam no corpo das pessoas para atormentá-las. Segundo a mentalidade popular, o ar estava infestado por milhares destes espíritos imundos, sempre à espreita do momento oportuno para se introduzirem no homem. E, uma vez dentro, o doente só podia livrar-se, através da cerimônia do exorcismo que, nem sempre resultava eficaz. Somente alguém com muito poder é que podia enfrentar estes espíritos.

Por escritores da época, como Flavio Josefo (que escreveu justamente em Roma), sabemos que a cerimônia era muito complexa. Tomava-se um anel de metal que era atado à raiz de uma planta especial. Depois, o exorcista o colocava no nariz do endemoniado e recitava uma série de encantamentos secretos, cominando o demônio a abandonar o homem e não voltar jamais. Para que a libertação do possesso ficasse demonstrada, o espírito deveria derramar, ao sair, um recipiente com água colocado à distância.

Mas havia mais. A raiz da planta usada no exorcismo não era fácil de ser conseguida. E, uma vez encontrada, era difícil retirá-la, pois escorregava das mãos. Para poder extraí-la, jogava-se urina de mulher sobre ela. E, depois de ser arrancada, quem a tocasse morria, a não ser que a enrolasse no braço mediante um rito especial.

EXORCISMOS DE FRONTEIRA

Diante de um ritual tão complexo e pouco efetivo, Marcos escolhe como primeiro milagre um exorcismo, precisamente para mostrar a seus leitores romanos o enorme poder de Jesus, muito superior ao que até então eles conheceram. Deste modo, ensina-lhes que quem ficar ao lado de Jesus, poderá derrotar as forças mais poderosas do mal, aquelas que os deixavam intranquilos e assustavam-nos.

Por isso, como para os leitores de Marcos o exorcismo tinha uma significação especial, cada vez que ele conta um exorcismo (quatro ao todo) localiza-o nas fronteiras do país. Sendo assim, o primeiro, o do homem da sinagoga (1, 22-28), ocorre em Cafarnaum, cidade limítrofe com o país de Gaulanítide. O segundo, do endemoniado de Gerasa (5, 1-20), “na outra orla do mar”, isto é, em terras pagãs na fronteira da Palestina. O terceiro, da filha da mulher siro-fenícia (7, 24-30), “na região de Tiro”, país ao norte da Palestina. E o quarto, do jovem epiléptico (9, 14-24), é feito (segundo as indicações geográficas de Marcos) na região de Cesárea de Filipo (8, 27), isto é, no território não judeu, ao lado da Galiléia.

Todos os exorcismos relatados por Marcos se transformam, pois, em uma mensagem enérgica para seus leitores: o poder e a força de Jesus de Nazaré estão sobretudo a serviço deles, os pagãos. Muitas vezes perseguidos e postergados. Eles que estavam nas fronteiras da vida e à margem da sociedade.

SEM PÁLPEBRAS NEM ORELHAS

Dez anos depois de Marcos, Mateus escreve seu evangelho. Seus destinatários já não são (como no caso de Marcos) de origem pagã, a maioria é formada por crentes de origem judaica, portanto, impregnados pela mentalidade e cultura deste povo. Por isso Mateus escolherá como primeiro milagre de Jesus a cura de um leproso.

O relato diz: “Quando Jesus desceu o morro, uma grande multidão o seguiu. Então, aproximou-se dele um leproso e se ajoelhou diante dele, dizendo-lhe: ‘Senhor, se quiser pode limpar-me dessa lepra’. Jesus estendeu a mão, tocou-o e lhe disse: ‘Quero, que você fique limpo’. E ao instante o homem se livrou de sua doença. E Jesus lhe disse: ‘Olhe, não conte isso para ninguém. Vá embora e procure o sacerdote, leva-lhe a oferenda que Moisés ordenou, para que lhes sirva de testemunho’” (Mt 8, 1-4).

Por que Mateus escolheu este caso como o primeiro milagre de Jesus? Porque para a mentalidade judia daquele tempo (como para muitas culturas antigas) não havia doença mais assustadora e horrível que a lepra.

Nesse momento chamava-se “lepra” a qualquer afecção da pele, alguns depoimentos que conhecemos dessas patologias são pavorosos: caíam as orelhas, desprendiam-se as pálpebras, a pele se tornava uma massa ulcerosa e se perdiam paulatinamente os dedos das mãos e dos pés. Pouco a pouco, os músculos do corpo se desintegravam, e as mãos se contraíam até adquirir o aspecto de garras ou cascos. Então o enfermo perdia a razão, entrava em coma e, finalmente, sofria uma morte horrorosa.

A lepra causava um terror tão grande aos judeus, que a Bíblia conservou dois capítulos inteiros dedicados a ela e a sua prevenção (Levítico 13-14), o que não ocorreu com outra doença.

UM MORTO EM VIDA

Mas se o sofrimento físico do leproso era terrível, sua situação social era pior ainda. Quando diagnosticavam lepra a pessoa imediatamente era expulsa de sua família e do lugar onde vivia, não podia entrar na cidade. Estava condenado a viver só no campo (Lv 13, 46), vestir-se com farrapos, usar cabelo despenteado, a boca coberta de vendas e, ao caminhar, devia gritar: “Impuro, impuro” (Lv 13, 45). Era, realmente, um morto em vida.

A lei judaica enumerava sessenta e um contatos que tornavam alguém impuro. E o segundo em ordem de importância (depois do contato com um morto) era o contato com um leproso. Bastava que um destes introduzisse a cabeça numa casa, para que esta ficasse contaminada desde os alicerces até o teto. Ninguém podia ficar a menos de dois metros de um leproso e, se o vento soprasse de seu lado, este devia afastar-se a cinquenta metros.

Havia mestres judeus que se gabavam de nunca ter comido um ovo comprado numa rua por onde havia passado um leproso. Outros, de jogar pedras neles, para que fossem embora. Outros, de se esconderem ou sair correndo quando os avistavam de longe.

ANTEPASSADOS SANATIVOS

A purificação de um leproso, portanto, deve ter sido um milagre o suficientemente impressionante para um judeu, para que Mateus o colocasse em primeiro lugar na lista dos prodígios feitos por Jesus. Sobretudo pela forma assombrosa como o fez: tocando-o. Algo jamais visto por um judeu. Talvez não seja exagerado pensar que, para os leitores de Mateus, a frase mais horripilante de seu evangelho tenha sido: “Jesus estendeu a mão e o tocou” (8, 3).

Mas havia uma segunda razão pela qual Mateus colocou este relato como o primeiro milagre de Jesus. É que os grandes personagens da tradição judaica possuíram o poder de curar leprosos. Assim, a Bíblia contava que Moisés havia curado a lepra de sua irmã María (Nm 12, 9-16) e que o profeta Eliseu fez o mesmo com o general sírio Naaman (2 Re 5, 1-14). Portanto, com este milagre Mateus quis também ensinar que Jesus estava no mesmo nível de Moisés e do profeta Elías, os dois grandes antepassados do povo de Israel.

O DEMÔNIO REPETIDO

Mais ou menos nesta mesma época, Lucas escreveu seu evangelho. E , assim como Marcos, dirige-se a um grupo de cristãos de origem pagã. Portanto, em seus escritos ele preferiu voltar ao outro “primeiro milagre” de Jesus. Isto é, à cura do endemoniado na sinagoga de Cafarnaum (Lc 4, 31-37). Desta maneira, esperava causar o mesmo efeito que obtivera Marcos em seus leitores pagãos.

PARA ANUNCIAR O MESSIAS

São João escreve seu evangelho em último lugar. Mas, divergindo dos outros três evangelistas (que ao longo de suas obras tinham querido mostrar que Jesus estava dotado de um poder impressionante e de uma grande autoridade), ele pretende ensinar outra coisa.

A comunidade de João enfrentava grupos de judeus que não aceitavam Jesus, que não o reconheciam como o Messias. Portanto, o problema que João tinha não era o de convencer seus leitores (muitos deles ex-judeus) do grande poder de fazer milagres que tinha Jesus, senão que ele era realmente o Messias esperado, o enviado de Deus. Diz isso expressamente no final de seu escrito: “Estes prodígios foram escritos para que vocês creiam que Jesus é realmente o Messias, o Filho de Deus” (Jn 20, 31).

Com este esclarecimento, vejamos agora o primeiro milagre de Jesus, narrado por São João: “Celebrava-se um casamento em Caná da Galiléia, e a mãe de Jesus estava ali. Jesus também havia sido convidado ao casamento com seus discípulos. Como o vinho acabara, a mãe de Jesus lhe disse: ‘Não tem mais vinho’. Jesus lhe respondeu: ‘Mulher, o que nós temos a ver com isso? Minha hora não chegou ainda’. Mas sua mãe disse aos empregados: ‘Façam o que ele lhes disser’. Ali, havia seis vasilhas de pedra, postas para as purificações dos judeus, cada uma com cem litros. Jesus lhes disse: ‘Encham as vasilhas com água’. Encheram-nas todas. Jesus ordenou: ‘Retirem-na agora e levem-na ao mordomo’. Eles a levaram. E quando o mordomo provou a água transformada em vinho, como não sabia de onde provinha (embora os empregados que haviam retirado a água soubessem), chamou o noivo e lhe disse: ‘Todo mundo serve primeiro o bom vinho, e quando todos já beberam bastante, serve-se, então, um vinho de qualidade inferior; mas você deixou o melhor vinho para o final’. O que Jesus fez em Caná da Galiléia foi o primeiro sinal. Assim manifestou sua glória e seus discípulos acreditaram nele” (Jn2,1-11).

PARA QUE TANTO VINHO?

Por que João relata este milagre como o primeiro de Jesus? É que, segundo a crença judaica, quando o Messias chegasse, Deus o festejaria com uma grande festa de casamento, na qual o noivo seria Deus e a noiva, o povo de Israel. Nesse dia, Deus se casaria com seu povo e, a partir daí, o cuidaria e serviria com amor eterno, e não o abandonaria jamais. Assim era anunciado pelo profeta Isaías: “Como um jovem se casa com uma moça, assim seu Criador se casará com você; a alegria que o esposo sente por sua noiva, Deus a sentirá por você” (Is 62, 5). O profeta Oséias também : “Eu farei de você minha esposa, Israel, para sempre; eu me casarei com você, porque a amo muito; você se unirá com Jeová” (Vos 2, 21-22). E assim, outros profetas.

Segundo a tradição também, essa festa de casamento se caracterizaria pela abundância de vinho, como dizia, entre outros, Amós: “Naquele dia, pelos morros e colinas fluirá o vinho como água” (Am 9, 13); Isaías: “Aquele dia Jeová oferecerá a todos os povos um banquete com vinhos extraordinários e abundantes” (Is 25, 6); Joel: “Aquele dia terá uma colheita enorme de trigo e as bodegas transbordarão de vinho” (Jl 2, 24). Inclusive um livro apócrifo (2 Baruc 29, 5) diz, referindo-se ao casamento do Messias: “Nesse dia, cada tronco da videira terá mil ramos, cada ramo terá mil cachos, cada cacho terá mil uvas, e cada uva dará quinhentos litros de vinho”.

ADEUS ÀS ÁGUAS

Ao mostrar Jesus numa festa de casamentos, São João mostra que a boda escatológica, isto é, a que Deus havia preparado para o final dos tempos, já chegara com Jesus.

Se a isso acrescentarmos o que Jesus faz aparecer nesse casamento: seiscentos litros de vinho! uma cifra exorbitante (em nenhuma festa popular poderia haver tal quantidade de vinho), a mensagem estava clara: Jesus é o Messias esperado, é o enviado de Deus que traz o vinho em abundância, portanto, os últimos tempos já começaram.

O milagre das bodas de Caná (e todos os milagres de Jesús, em São João) não pretende mostrar o poder “exterior” de Jesus, senão sua pessoa “interior”. Não quer revelar “ o que Jesus pode fazer” , senão “quem é Jesus” . Por isso, João não chama tais fatos de “milagres”, senão “signos”. Porque um signo é um sinal de outra coisa (não do que se vê); é a impressão de outra realidade mais profunda, que o leitor deve descobrir.

Enfim, se notamos que os seiscentos litros de água que Jesus substitui por vinho não estavam em qualquer recipiente, mas sim “nas vasilhas que os judeus usavam para suas purificações”, a mensagem é bem mais impactante: os ritos e as práticas judaicas deixaram de ter valor; foram substituídas pelo vinho da Eucaristia.

PARA QUE A ALEGRIA VOLTE

Cada “primeiro milagre” de Jesus contado pelos evangelistas tem significado próprio. Em João, aprendemos que Jesus é verdadeiramente o Messias, o enviado de Deus, e que não devemos esperar nenhum outro Salvador. Em Marcos (e Lucas), fala-se que o poder do Messias está a nossa disposição para derrotar às forças escuras e tenebrosas que nos oprimem internamente. E Mateus indica-nos que Jesus também tem poder para vencer as divisões sociais e as discriminações que nossa sociedade fabrica para as pessoas “impuras”.

Cada evangelista anunciou esta Boa Notícia para suas comunidades da maneira que pôde e com a linguagem que soube. No mundo de hoje, em que as pessoas vivem pressionadas por opressões internas e segregações sociais externas, nós, cristãos, devemos mostrar que o poder do Messias continua vigente em nós e que podemos repetir o milagre de liberar os homens das forças sombrias que os oprimem por dentro e por fora.
____________________
P. Ariel Álvarez Valdés

 

O Segundo Milagre de Jesus no livro de S. João : A CURA DO FILHO DO OFICIAL

cura

EVANGELHO DE S. JOAO, Capítulo 4

 

“43 E, dois dias depois, partiu dali e foi para a Galiléia.

44 Porque Jesus mesmo testificou que um profeta não tem honra na sua própria pátria.

45 Chegando, pois, à Galiléia, os galileus o receberam, porque viram todas as coisas que fizera em Jerusalém no dia da festa; porque também eles tinham ido à festa.

46 Segunda vez foi Jesus a Caná da Galiléia, onde da água fizera vinho. E havia ali um oficial do rei, cujo filho estava enfermo em Cafarnaum.

47 Ouvindo este que Jesus vinha da Judéia para a Galiléia, foi ter com ele e rogou-lhe que descesse e curasse o seu filho, porque já estava à morte.

48 Então, Jesus lhe disse: Se não virdes sinais e milagres, não crereis.

49 Disse-lhe o oficial: Senhor, desce, antes que meu filho morra.

50 Disse-lhe Jesus: Vai, o teu filho vive. E o homem creu na palavra que Jesus lhe disse e foi-se.

51 E, descendo ele logo, saíram-lhe ao encontro os seus servos e lhe anunciaram, dizendo: O teu filho vive.

52 Perguntou-lhes, pois, a que hora se achara melhor; e disseram-lhe: Ontem, às sete horas, a febre o deixou.

53 Entendeu, pois, o pai que era aquela hora a mesma em que Jesus lhe disse: O teu filho vive; e creu ele, e toda a sua casa.

54 Jesus fez este segundo milagre quando ia da Judéia para a Galiléia.”

Muitas coisas podemos aprender com esta passagem bíbilica. Mas gosto de estudá-la sob a ótica nao apenas da cura do filho do oficial, mas justamente sob o prisma do que aquela homem teve de fazer para receber em sua vida dois grandes milagres operados pelo próprio Jesus: a cura do filho e, em seguida, o milagre da salvação

A primeira coisa que aprendemos ao estudar o segundo milagre de Jesus descrito no livro de João, é sobre a humildade do oficial do rei. Apesar de ser um homem nobre (um oficial real de alto escalão na corte de Herodes,) ele foi humilde o suficiente para vir até Jesus. E aqui precisamos lembrar que Jesus era um simples carpinteiro da vila de Nazaré. Mesmo assim o oficial viajou cerca de 32 quilômetros de Cafarnaum até Caná para conseguir a ajuda de Jesus.

Também podemos aprender sobre a perseverança do oficial em conseguir seu intento. Mesmo após ser repreendido por Jesus, que disse ”se vocês não virem sinais e maravilhas, nunca crerão”. O que se passou ali foi um teste de fé que Jesus estava aplicou naquele homem. Se o oficial tivesse sido orgulhoso demais e não aceitasse a repreensão e fosse embora, certamente Jesus teria entendido que sua fé não era genuína.

Mas aquele sujeito tinha muita fé. E ocorreu que após as palavras de Jesus o oficial retornou para casa com a única certeza dada pala afirmação de Jesus: “Você pode ir. Seu filho viverá”.
Devemos crer que o que Jesus diz sempre é verdade, mesmo quando pensamos que tais promessas não sejam verdadeiras.

Ele se entregou às promessas de Jesus. E não só ele, mas toda a sua casa passaram a servir ao Reino de Deus. O que aprendemos então é que através do milagre de cura na vida do filho do oficial, veio o milagre da salvação, da mudança de vida para todos os familiares dele. A obra que Jesus fez naquela família foi completa. Você já viu algo parecido acontecer em nossos dias ?

 

Terceiro Milagre de Jesus no Livro de João (Capítulo 5) : CURA DO PARALÍTICO DE BETESDA

A CURA DO PARALÍTICO DE BETESDA

1. Depois disto havia uma festa entre os judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.

 

2. Ora, em Jerusalém há, próximo à porta das ovelhas, um tanque, chamado em hebreu Betesda, o qual tem cinco alpendres.

3. Nestes jazia grande multidão de enfermos, cegos, mancos e ressicados, esperando o movimento da água.

4. Porquanto um anjo descia em certo tempo ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que ali descia, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse.

5. E estava ali um homem que, havia trinta e oito anos, se achava enfermo.

6. E Jesus, vendo este deitado, e sabendo que estava neste estado havia muito tempo, disse-lhe: Queres ficar são?

7. O enfermo respondeu-lhe: Senhor, não tenho homem algum que, quando a água é agitada, me ponha no tanque; mas, enquanto eu vou, desce outro antes de mim.

8. Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma o teu leito, e anda.

“Sabe o que este milagre nos ensina?

a) Os milagres de Deus não ocorrem por merecimento, e, sim, por vontade soberana de Deus, pela infinita graça. O texto não diz que o paralítico fez campanha, nem mesmo que era um cristão. Diz simplesmente que Jesus se dirigiu a ele e o curou. A iniciativa partiu do próprio Jesus, foi Ele quem viu o paralítico;

b) Jesus perguntou se o homem desejava a cura. Assim como perguntou a Bartimeu e a outros. Tem que existir o desejo, vontade. Deus dotou o homem da capacidade de decidir e por isso espera que o mesmo use tal privilégio com sabedoria. Se a pessoa não quiser, Deus não o fará forçadamente;

c) Os milagres de Deus não possuem fórmula para acontecerem. Deus age como quer. Se Deus pudesse ser manipulado pelo homem para operar milagres, Ele poderia ser um pseudo-deus, não o Deus onipotente, onisciente e onipresente;

d) O tempo e o dia em que um milagre acontece pertencem a Deus e não ao homem. Deus opera na hora oportuna. Era um sábado, um dia sagrado para os judeus, mas a cura do paralítico, na escala de valores de Jesus, era mais importante, estava acima da religião. Se aquele paralítico estava há 38 anos no Tanque de Betesda, isso significa que quando Jesus nasceu, aquele homem já estava ali. É claro que Deus pode operar imediatamente um milagre àquele que clama em desespero, Ele é Deus e conhece a necessidade de cada um. Mas pode ser que o milagre não ocorra no tempo em que o homem espera. Deus é soberano;

e) Por último podemos entender através desse acontecimento que Deus se importa com o desfavorecido, necessitado e excluído. Caso você esteja entregue à própria sorte como o paralítico, não perca a esperança, Deus pode lhe surpreender e surgir de repente junto ao tanque da sua vida e realizar um milagre em seu favor.”

 

Um amor que sobrevive ao tempo

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